Quando em plena Guerra Fria, e eu era a
criança que nunca deixava chocolates para comer amanhã, ouvi essa música no Top
+, pensei: “mas não será obvio? Claro que os russos também amam os seus
filhos”? Qual é a dúvida?” Felizmente, e apesar de ser uma criança triste (sim,
apesar dos chocolates, nunca andei por aí carregada de endorfina e sorotonia e
os seres endorfinados sempre me pareceram tontinhos, como pássaros cantando nas
galhas antes de levarem um tiro, mas isso é uma falha estritamente biológica,
provavelmente genética, uma desadaptação congénita, um resultado evolutivo “último”),
não era para mim imaginável uma humanidade que não amasse os filhos. Podia ter
feito muito frio e eu nem ter sido feliz, mas a minha mãe e o meu pai, com os
seus ataques ocasionais de querer moldar-me, mudar-me um pouco, corrigir-me
(bastante infrutíferos creio), nunca me levaram a questionar o amor dos pais
pelos filhos. Não conhecia monstros. Não acreditava em monstros, muito menos
numa humanidade que institucionaliza a monstruosidade.
Nesta semana no Afeganistão foi legalizada uma
prática que deverá ser aí comum. Os homens têm direito de bater nas suas
mulheres e filhas, têm direito de as venderem, mutilarem… Whatever...
Acreditais na humanidade? Certo é também que as nações não são pai
nem mãe, mas supusemos que os estados teriam como função defender os que não
têm força bruta para não se deixarem espancar e violar ou matar. Teriam de
garantir os nossos “humanos direitos”, qual mãe e pai da "colecção". De onde nos
veio essa ideia?
Contudo, propor-se matar um filho para
continuar a pertencer a um feudo protector de um deus qualquer é afinal algo
monstruosamente humano. Matar um pode significar ter outro. Obedecendo terás
vida? Sim. É absurdo, mas verdadeiro. Do ponto de vista masculino podem ter-se
centenas de filhos. Um sacrifício, de ou outro numa guerra letal, pelo capricho
de um deus, pela manutenção de uma ordem social qualquer, não faz diferença.
Não recebeu Job outra família, uma nova, e maior prosperidade em troca? Em
troca do quê? De onde nos veio esta ideia de que todos podemos ser únicos e insubstituíveis,
mulheres e crianças das nações? Do "espírito de rebelião" ou de um novo deus, um deus "homem frágil". De onde tirámos o fundamento de que não somos
meras coisas para transportar os genes do rei da selva, Abraão eleito por
obediência cega ao macaco “ideal”. Do ponto de vista genético, os seres do sexo
feminino sabem que não são contemplados nem com o arsenal bélico, nem com o
arsenal estatístico dos machos. Ainda assim, tratadas como coisas, têm de conformar-se a uma quantidade rude e primordial, em que um ou dois a mais ou a
menos não fazem diferença. A Rússia tortuosa,
tem uma alma demasiado inflamada de filhos feridos. Não é imune à dor maior. É
certo. Foi contaminada pelo "demónio". Lá, como aqui, ser pai e mãe é também sofrer. Não é "Aceitar". Lá, como aqui, deus desceu dos céus e tornou-se homem, auto sacrificou-se, aceitou a morte, pela "redenção" desses indivíduos rebeldes que são os greco-romanos das novas eras, e nem Marx, nem Lenine, e a religião humana do século XX, apagaram a inscrição na ordem cultural dos flagelados, filhos de Eva, incapazes de aceitar a finitude, a impossibilidade de tomar o Céu de assalto. A questão chinesa é diferente. Parece-nos que Marx foi aí mais eficaz. Haveria uma pré-inscrição mais propícia, menos propensa ao "mal". Aí, não como com Israel, que é um caso à parte, a nação é tida como o
pai e mãe, de modo que não serão assim tão “únicos”, os filhos sem irmãos de
uma pátria colectiva que tem muitos para “gastar”. Para nós, "bonzinhos da cabeça",
indivíduos individuais, a perda é inestimável e o sacrifício imensurável. No Afeganistão
não há pátria, mas há uma ordem social de babuínos, onde se garante o direito do macho
dispor da sua prole como entender. Tem custado muito derrubar o babuíno macho
do alto da sua sebe. É uma luta constante, entre os fracos em força e os fortes
em “Lei”. Tem lugar na nossa rua, à nossa porta. O que pode um humano bebé
contra uma fera? Tudo isto faz-me apreciar mais as hienas. É certo que se alimentam
à vez e resmungam entre elas mas… e quem inventou que todos têm um lugar único
e insubstituível? Onde nasceu a nossa individualidade? Onde apareceu o nosso
lugar especial no formigueiro? Seremos melhores que hienas, diferentes de
formigas? Ainda assim, foi nessa relação “animal” entre a mãe e o filho, o pai
e a prole, nesse acordo genético de defender os nossos, que nasceu também todo
o nosso restante amor, se algum temos. Ou não? Ainda assim, por Cristo, nosso
irmão redentor da selvática desordem que resulta de um conjunto de indivíduos, ou sem Cristo, com Deus Pai, rei dos
macacos visíveis e invisíveis, fora das leis, dentro das leis, haverá em todas
as nações do planeta mais pais e mães que amam os seus filhos também, do que o
contrário. Mas isso talvez seja um preconceito cultural meu. Não sei.
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